terça-feira, 2 de outubro de 2018

Segredo do ir.

Essa criança pura, de olhos cheios de rugas. Tão cheia de medos quanto está de anseios, não se deixa parar - nem quando está cansada; talvez especialmente aí. Pode não saber bem por onde caminha em todo e cada dia, mas isso não a trava - e às vezes, é pura e simplesmente esta audácia roçando a ignorância que mantém tão vivo o brilho dos seus olhos.

- Então mas vais assim? Então e se...

- Não posso trabalhar com "ses". Deixa vir. Deixa ver. E eu arregaçarei as mangas e lidarei com o que vier. Como sempre fiz.

Nem sempre nem nunca, menina, aconselham os sábios e os experientes por entre dentes.

- Isso está tudo muito bem - diz a menina, antecipando-lhes os pensamentos - e eu vou ter isso em conta. Mas não vou deixar de tentar. Tentar é o único verdadeiro passo antes de conseguir. Com o medo, vou deixar-me ficar aqui. E isso sim, isso não vai ser bom para mim. Porque o medo torna-se raiz. E raiz ó é boa enquanto nos ajuda a continuar a crescer.

Muitos provavelmente a julgam ingénua. Sabe lá o que é a vida.
E vocês, sabem lá o que se esconde naquela pele que parece de bebé. Não atentem nos passos que parecem inseguros - porque todos somos inseguros no caminhar, depois de um trambolhão) e não apenas quando aprendemos a caminhar).
Atentem antes nos olhos dela, colados ao horizonte e aos pormenores - a avaliar tudo. Percam mais tempo a reparar nos seus silêncios do que nas suas palavras, por vezes atabalhoadas ou parcas. Nos silêncios ela congemina, liga os pontos, vê o plano maior. No silêncio damos tempo a nós próprios, damos balanço. E só depois vamos. Como aquele segundo que parece uma paragem, quando o baloiço se prepara para voltar a subir - desta feita, ainda mais alto.

Há pessoas que se dão tão bem a usar a mente para caminhar. Com a mente planeiam, arrumam. Depois há as que usam o coração - e com ele escrevem, vivem. E saltam.
Por isso atentem no subir e descer do peito. Aproximem-se um bocadinho e desliguem os filtros - imaginem-se a observar um animal e capturem-lhe os movimentos, sem o prender. Neles reside a essência do que é esse ir. Neles está talvez o segredo.

Dito isto, não têm de fazer absolutamente nada do que acabei de aconselhar. Simplesmente, podem perder a oportunidade de ver um lindo comboio a passar por vocês. E quem sabe a dar-vos boleia até ao outro lado dos vossos medos.

[Quem sabe o que está do outro lado dos vossos medos?]

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