domingo, 13 de maio de 2018

No vale dos anseios.

É do vale dos anseios que vos chego, hoje.
Lá para o fundo de uma caixa, talvez. Onde, feito o inventário e dispersos os efeitos especiais dissuasores de atenção, estou sozinha.
Um lugar onde tantos se encontram tantas vezes - sozinhos, todos eles. Mas onde nunca ninguém se sente acompanhado, por mais rumores que oiçam dizendo que isto é normal, que acontece a muito boa gente.

Isto porque se trata de um jogo invisível.

Não é a perna que incha, nem o osso que parte. Nem sequer se pode dizer que é o coração que pára de trabalhar - isto porque o coração em boa verdade é uma bomba, e não um reservatório de emoções, como metaforicamente descrevemos. Porque esta é casa de escritores, poderíamos, ainda assim, permitir-nos a metáfora do coração cansado... mas não, nem assim se descreve.

Ansiedade. Talvez seja simplesmente perder o controlo sobre o que acontece ao nosso corpo, tornando-nos espectadores que não obstante sofrem também as consequências (ao estilo de um cinema com efeitos especiais a mil dimensões, do mais realista que a Disney possa conceber).

[E nós vemos o comboio a passar-nos por cima. E nós imóveis.]

Não queremos (ou não conseguimos?) pedir ajuda (talvez tenhamos medo que achem que estamos a pedir que nos protejam de fantasmas), mas sem ajuda não há como continuar.

Uma batalha travada contra o próprio corpo, apenas para se entender, a certo ponto da batalha (já corre sangue, já se espetam bandeiras na terra reclamando direitos e territórios), que o corpo não é o inimigo. O corpo é, isso sim, um competente e implacável mensageiro da mente.

As camisolas dos jogadores são todas da mesma cor. Não há como as distinguir.

O necessário, no fim disto tudo concluímos, é parar. Parar por aquilo que parece ser um interminável momento, que não é escolhido por nós... Deixar que os jogadores, as peças, se arrumem, sem que haja necessariamente um entendimento perfeito das regras que se estabeleceram, da lógica de arrumação. E mais tarde, cabe-nos olhar para dentro com empatia e abraçar tudo o que lá está, pedindo-nos calor.

Mas há que dizê-lo, quem é que, depois de uma autêntica guerra, tem vontade de abraçar o filho da puta que estava do outro lado das trincheiras? Ainda que, bem vistas as coisas, do outro lado das trincheiras haja apenas uma criança a fazer uma birra...

(porque obrigar alguém que ainda agora descobriu que podia dançar, a parar... é tortura)


** Uma nota final a outros caminhantes deste vale dos anseios: não tirem os olhos das pedras do caminho. Agarrem-se ao que vos for morno, ao que vos aquietar o coração (seja o que for). Eu sei que não parece, mas vai correr tudo bem. O comboio há de passar. Senão vejam por mim. foi preciso o comboio passar para eu voltar a escrever.

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