domingo, 3 de dezembro de 2017

Pela toca do coelho abaixo

Já experimentaram correr de coração vazio?

O peito altera-se com a respiração, assoberbado com o ar que entra e o que sai, ambos apressados, caóticos, desorganizados. Mas um ar vem, outro vai. Nenhum dos dois fica, verdadeiramente. Momento houvesse em que disso o peito se pudesse aperceber - aí ele se confrontaria com o salão vazio, onde mora apenas um nó. Mas um nó é como coisa morta, não adianta; apenas atrasa, se tanto. E o ar lá vai contribuindo para esta confusão, com as suas manobras de diversão. Esta espiral não ajuda nada.

Down the rabbit hole

Os tempos não estão para grandes luxos. Em tempo de guerra, ainda assim, não se limpam armas. Portanto vamos lá. Às pequenas coisas que nos mantenham ao de cima.

Agora que penso nisso, um pequeno luxo é o momento do banho. Permite-se aquecer finalmente o corpo, mergulhando em água demasiado quente, demorando um pouco mais para deixar que o calor vá mais além. Que desça a toca do coelho e massaje, ainda que subtilmente, o dito nó. Momentos de silêncio, ou de música, gritantemente necessários. Para voltar a centrar a bússola. É daqui que tudo tem de partir. Do centro de nós partem as frotas para ajudar o mundo inteiro.

Ah, um outro toque de magia: adormecer um bebé. Quando nada mais quiser resultar; quando nada te ocorrer, segue esta receita. Pega-o nos braços [ele desperto e rabino, indeciso sobre se deverá demonstrar as capacidades vocais] e inunda-o de mimo e paciência. Embala-o, sem pressas entranhadas nos músculos, e observa as suas pálpebras a cederem lentamente; o seu corpo pequenino vai relaxando lentamente, e os olhos tentam ainda resistir, mas sentimos a magia a chegar. Paciência, força nos braços, e foge para a zona mais escura; observa esta pequena nova vida a deixar abandonar-se ao sono. Sente o amor a suar de ti, observa cada segundo, cada gesto. Quem te dera que pudesses assim embalar alguns crescidos. Que prazer, vê-lo adormecer, e primeiro de pestanas ainda trémulas, e depois finalmente abandonado ao mel do descanso profundo, encosta-o a ti e permite-te ser o abrigo para essa paz: partilha-a, a paz. Sentir-te-ás mesmo a maior do mundo.

[Anseio por um daqueles abraços que demoram o tempo de uma volta do mundo sobre si mesmo. Perdeu-se o tempo, nos dias que correm, para dar abraços desses.]

1 comentário:

Ana Carolina Helena disse...

Não sei se será a falta de tempo ou o facto cada vez mais ser difícil reunir as condições necessárias à verdadeira fruição desse abraço. Andamos - cremos nós, para a frente - mas na maioria das vezes muito desnorteados.