sábado, 8 de julho de 2017

Era o sonho, ou eu.

Vi-te ao longe e quis ir ao teu encontro. Não sabia ainda o que é que isso significava. Não sabia nada. Mas achava que sim.

Assim fiz, de impulso. Como em quase tudo o que faço. E deixei-me estar ao teu lado, porque fazia sentido. Porque o mundo se abria à nossa passagem e eu via um outro mundo, desfilando nos teus olhos. Um mundo de coisas novas, com brilho, sem tecto e sem fim. Um mundo onde eu podia caminhar e ser dona de qualquer coisa. Talvez de mim.

Mas não foi isso que aconteceu. Ou pelo menos não foi a única coisa que aconteceu.
De facto, com alguma frequência aconteceu o inverso. Estar contigo acabava por me dar uma sensação de impotência. Por vezes esmagadora. De não ser suficiente. De não conseguir chegar aonde tu precisavas que eu chegasse. E lá estou eu, às voltas para tentar pôr a culpa só em ti. Claro que também tive culpa - pelo menos metade é minha. A verdade é que eu não estava lá.

Não sabia o que estava a fazer, e por isso só posso agora pedir desculpa. Como tanto do que sou, não era isso que eu queria.

Quis caminhar, e de impulso me meti ao caminho, sem me permitir aceitar uma pata partida. Uma asa quebrada, sem a qual acompanhar-te nos teus voos era impossível, por mais desejado que fosse. Não tenho medo de me aceitar como um animal de pata partida. Não só pela dignidade que identifico nos animais, em tudo mais grandiosos e generosos do que aquilo que nós, humanos, somos capazes; mas também porque descreve bem o estado a que cheguei. Reduzida a uma paleta minimalista de emoções das quais dispor; toldada por uma fome incrível. Fervida até que sobrasse apenas um sentido fino de sobrevivência.

Eu quis ficar no sonho. E para chegar a uma resolução sobre isto, algo tinha que morrer. Ou eu, ou o sonho. Porque ser humano algum consegue para sempre permanecer num sonho, a não ser que morra. E sonho algum pode permanecer no tecido real - em algum momento, tem de acabar.

Se não houvesse um registo, se não houvessem testemunhas, daria quase para duvidar. Da perfeição de alguns momentos, de contornos tão absolutamente livrescos.

E talvez por isso. Talvez para ter isso, um dia se tenha de abandonar o barco. Para não nos perdermos nesse labirinto que é acreditar que os sonhos podem ser realidade sem desafios, sem compromissos, sem cedências e sem luta.

Com tudo isto, obrigada. Por me dares condições para sonhar acordada, mostrando-me onde elas estão escondidas, dentro de mim. Condições que são difíceis, muito difíceis de matar.

1 comentário:

Ana Carolina Helena disse...

Puro, tocante, Nadine...