segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Caixas vazias.

Há dias em que podíamos ser caixas vazias. Todos nós temos dias sem interior, sem presença.
Mas outros dias há, em que a caixa está cheia. Diferentes objectos se nos revelam e nos preenchem, de formas diferentes e bonitas. E o que nos leva lá, a cada um de nós, é a nossa capacidade tola de continuar a sonhar.

A minha ponte? O meu objecto? O amor. Sim, ainda acredito. Ainda vejo, numa linha mais lá ao fundo, a minha mão suportada por outra, forte, constante. Oiço uma gargalhada sobre a minha, dando força uma à outra, mutuamente.  A par de todas as imperfeições, de todas as resmunguices, a minha mão estende-se para a sua face, lembrando-se da ternura nas horas mais imprevisíveis.

A minha voz desafinada enche a sala, e há alguém que me ouve sorrindo. Com isso sentindo-se confortado.
O meu coração enche-se ao ser surpreendida com um beijo. Quando acordo sabendo que um abraço é o meu lugar seguro, em dias de chuva, de poeira, de assim-assim.
Muito disto não será como imaginei. Mas este calor, esta presença. Como uma cadeira vazia, à espera da pessoa certa que nela se irá sentar, e de repente dar-lhe sentido. Propósito.  Cuidar e ser cuidado. Disso trata a história que tenho para contar.

Não desisto, apesar do silêncio. Deixo-me ficar nele, a apreciar o espaço, a apreciar o tempo que me resta antes do resto da minha vida, onde, acredito ainda, não estarei mais sozinha. Dou um salto para dentro da caixa. Divirto-me a cantar lá dentro, aproveitando o eco. Vou sonhando como arrumar a desarrumação nesta caixa, enquanto espero que o amor chegue e me ocupe o tempo, as mãos, o espaço, o coração.

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