domingo, 12 de agosto de 2018

Ronronar.

[nem sei explicar a benção, o alívio que é por vezes olhar para uma página em branco. haverão dias em que é um aperto; mas noutro dias, como hoje, é como um daqueles suspiros profundos que esvaziam o peito; a prometer acontecer dali a nada, quando a página estiver cheia.]

Esta sensação apertada, enquanto te pões a caminho de um sítio novo. O nervosinho no estômago, e o sorriso desaparafusado. Há um sabor tão diferente a dançar na boca - meio picante, que pede para beber algo doce. E quando molhas os lábios no alívio doce, dás por ti a ansiar por mais desse picante. Como entrar no mar, e depois receber o calor. E precisar novamente do mar, num círculo tão perfeito quanto poderia ser eterno, se o dia nunca terminasse.

Pôr de lado as sombras, os ses e tudo o que me diz que este caminho pode às tantas estar errado. E se elas (as sombras) insistirem em aparecer, estou até com disposição de criança para brincar às escondidas. Não conheço o caminho, mas já conheço as minhas pernas - sei que podem bem correr, e fintar os fantasmas.

Tenho uma vontade (de fonte não confirmada) de simplesmente ir.
[aquele segundo em que ponderas: devo beijar? e os teus olhos se trancam naqueles lábios. e tu sabes que não há nada a fazer. é nesse segundo que eu estou].

Por uma vez, não pensar nas malas, no peso, na rota. Não planear, não controlar (é possível?). E ai de mim, bicho solitário (e tu igual!), habituado a dormir sozinho. As manias cristalizadas e as feridas apenas cicatrizadas por um triz - qualquer coisa ameaça reabri-las, e as unhas põem-se já de fora, à espera do esticão. [e nisto damos dois passos atrás.]

Feitos gatos bravos. Mas gato também precisa de colo. O seu peito também anseia por poder ronronar. Por poder entregar-se. Ao sono e às mãos que sabem o que fazem. E o espírito, que quer ser livre, também quer duas mãos trancadas no rosto, a segurá-lo. [como é que que sei que me vais segurar? boa pergunta. não sei. só sei que sinto o peito a enrolar-se num lento, adivinhado e incontrolável ronronar, a sair-me da boca já escancarada num sorriso.]

E é aí que o corpo pede para correr. Parece que sabe para onde quer ir. Por uns beijos na alma, tudo.

[banda sonora ----->     Rubel - Quando bate aquela saudade ]

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Tirei-te a fotografia quando te conheci

Irrita-me, a obrigação de comprar prendas. Adoro fazê-lo espontaneamente, mas detesto o dedo espetado do calendário, de sobrancelha levantada a fazer exigências - a tensão provocado não deixa margem para a espontaneidade. 
E a espontaneidade é daquelas coisas que todos já tivemos, mas de que a vida nos foi despindo - e é o meu objectivo, chegada a uma nova fase da minha vida, redescobrir essa camada de mim, que me faz tão bem à pele e ao coração. Porque sinto que me volta para mim própria.

De qualquer maneira, onde eu queria chegar era que, ao contrário do ritual consumista de comprar uma prenda, não sinto qualquer tipo de pressão - mas pelo contrário, um enorme prazer - com a ideia de escrever umas linhas para alguém. Pegar num tópico, num sentimento - e deixar que ele leve a caneta. Ou neste caso, os dedos. Por isso, celebrem-se os anos novinhos em folha, celebre-se a espontaneidade assim mesmo, com o que temos de melhor.

Tirei-te a fotografia quando te conheci

Tinhas o cabelo arrumado por natureza, e (na minha memória) tinhas posto perfume na orla da camisola 
Conseguiu sobrepor-se ao aroma a sardinhada do arraial - senti-o assim que encostei a minha cara à tua para te beijar - tarefa difícil, já que deves medir mais uns bons trinta centímetros do que eu 

Mas foste desde logo um cavalheiro e não deste parte fraca - dobraste-te de tal forma que só me apercebi da tua altura dias depois, quando voltámos a ver-nos.
(É mestria, conseguir fazer alguém sentir-se ao mesmo tempo tão pequeno e tão grande.)

Com isto do perfume quero dizer que desde logo se fez sentir a tua marca. Tens assim um jeito fácil de envolver as pessoas - mas sem desculpas, muito teu. O charme e a mão segura. A mão forte, ao ponto de uma teimosia enraizada, ocasionalmente substituída por uma curiosidade infantil

Tirei-te a fotografia. E em cada dia encontro pormenores novos nela.


Foi uma agradável surpresa, descobrir noutra pessoa a capacidade de me fazer escancarar portas e janelas. Entraste pela porta, sem mais demoras - até porque os teus gestos demonstram esta mistura gira de alguém que não tem tempo a perder, mas ao mesmo tempo se permite olhar em volta e saborear tudo como se houvesse todo o tempo do mundo.

A idade traz muita coisa. Uma delas é o reconhecimento de que as coisas levam tempo para se revelarem - e acho que alguma paciência se desenvolve, em saber esperar para ver. Ao contrário daquela sede jovem (que por vezes ainda se manifesta) mas que com facilidade nos conduz a uma parede. 
Por isso ainda não sei. Reservo essas certezas para os deuses e deixo cair da minha mão a necessidade de controlar. Cinjo-me aos factos.

Facto é que devolves cor. Com um sabor subtil a mar, uma delicadeza entalada nas calças que se desvanece quando te permites rir. E quando ris, sim, escancaras portas e janelas, com o teu sorriso aberto e genuíno. Cheiras a qualquer coisa de verdadeiro que já se terá passado na minha vida. Na vida de muitos de nós, crianças felizes. Talvez por isso, esta sensação ocasional de que já te conhecia. E é também com o teu sentido de humor acutilante que desperta um sabor a casa e a pouco.

Não é fácil escrever sobre alguém que estamos a aprender a conhecer. Não é fácil fazê-lo sem deixar a imaginação voar. Mas talvez seja mesmo esse o encanto desta interacção. A aprendizagem de uma doce calma apressada, de uma contenção fluida em que a maturidade tem um papel essencial.
Em pouco tempo já me fizeste ver que o equilíbrio é um jogo delicado. Mas fizeste cócegas nos meus pequenos pés e fizeste-os caminhar nessa direção.

Agora aguenta-te.

(E diverte-te)




segunda-feira, 16 de julho de 2018

Um nada que parece um fio de luz

Caíam pessoas dos céus. Como se fossem peças de xadrez, mas sem fazerem qualquer tipo de ruído ao caírem no chão. Algo lhes amparava a queda - não faço ideia o que poderia ser.
Caíam pessoas à minha volta. Provavelmente não haveria nada que eu pudesse fazer. Mas isso nem sequer importa - porque onde eu quero chegar é que nem sequer me dei conta de nada.
Isso nada importava.

Estava ocupada a seguir um fio de luz. Não sei sequer precisar-lhe a forma. Pus na cabeça que podiam ser pirilampos - e que bonito que isso foi de imaginar, de sentir. Mas não posso precisar-lhe a origem, ainda... sinto que ainda estou a seguir esse fio, embora já não o consiga ver. Tudo o que sei até ao momento foi que me prendeu o olhar, trouxe-me de volta ao aqui e ao agora, e abraçou toda a minha atenção.

Ainda sei falar-vos do burburinho que senti. Assim um bocadinho como um formigueiro doce, que se sente quando o corpo sabe para onde quer ir. Sem grandes explicações, sem grandes porquês e muitos "ses", muitos espaços em branco... mas sim, agora vejo que é como se fosse uma constelação a formar-se devagarinho, e cada estrela se vai ligando à outra... a ligar os pontos. Estou naquele momento em que ainda não conseguimos ver o resultado final - ainda não sabemos dizer que desenho forma. Mas já percebemos, meio em instinto, de pés assentes no chão, que aquele chão nos faz tremer por dentro. E nos faz dançar.

Acho que foi assim. Acho que começou por ser um ponto... isso, um ponto de luz. E foi aumentando devagarinho, quase imperceptivelmente. E como boa luz que é, começou a aquecer o seu redor. Mas invulgarmente, não sei bem como, aqueceu-me para lá da pele - não, não senti nada na pele, ao início. Aqueceu-me logo por dentro, como se conhecesse um caminho invisível para lá chegar. E eu quero agarrar esse calor, mesmo sabendo que as minhas mãos podem não o aguentar. Mas enquanto o sentir cá dentro, vou tentar agarrá-lo, este bicho raro feito de luz.

Bem sei que já devem estar aborrecidos; realmente deve soar a algo demasiado vago para poder ser tomado em consideração. Mas achei que devia partilhar.este formigueiro. Quem sabe não recordo alguém dos seus formigueiros? Quem sabe se, falando com muita esperança a dançar na ponta da língua, não acordo outras paixões?

[Isto serve também em jeito de desculpa. Se me apanharem distraída de olhos no céu, não estranhem. Já perceberam que ando, feita miúda, ocupada atrás dos trilhos dos pirilampos. É que não os via há tanto tempo.]

domingo, 13 de maio de 2018

No vale dos anseios.

É do vale dos anseios que vos chego, hoje.
Lá para o fundo de uma caixa, talvez. Onde, feito o inventário e dispersos os efeitos especiais dissuasores de atenção, estou sozinha.
Um lugar onde tantos se encontram tantas vezes - sozinhos, todos eles. Mas onde nunca ninguém se sente acompanhado, por mais rumores que oiçam dizendo que isto é normal, que acontece a muito boa gente.

Isto porque se trata de um jogo invisível.

Não é a perna que incha, nem o osso que parte. Nem sequer se pode dizer que é o coração que pára de trabalhar - isto porque o coração em boa verdade é uma bomba, e não um reservatório de emoções, como metaforicamente descrevemos. Porque esta é casa de escritores, poderíamos, ainda assim, permitir-nos a metáfora do coração cansado... mas não, nem assim se descreve.

Ansiedade. Talvez seja simplesmente perder o controlo sobre o que acontece ao nosso corpo, tornando-nos espectadores que não obstante sofrem também as consequências (ao estilo de um cinema com efeitos especiais a mil dimensões, do mais realista que a Disney possa conceber).

[E nós vemos o comboio a passar-nos por cima. E nós imóveis.]

Não queremos (ou não conseguimos?) pedir ajuda (talvez tenhamos medo que achem que estamos a pedir que nos protejam de fantasmas), mas sem ajuda não há como continuar.

Uma batalha travada contra o próprio corpo, apenas para se entender, a certo ponto da batalha (já corre sangue, já se espetam bandeiras na terra reclamando direitos e territórios), que o corpo não é o inimigo. O corpo é, isso sim, um competente e implacável mensageiro da mente.

As camisolas dos jogadores são todas da mesma cor. Não há como as distinguir.

O necessário, no fim disto tudo concluímos, é parar. Parar por aquilo que parece ser um interminável momento, que não é escolhido por nós... Deixar que os jogadores, as peças, se arrumem, sem que haja necessariamente um entendimento perfeito das regras que se estabeleceram, da lógica de arrumação. E mais tarde, cabe-nos olhar para dentro com empatia e abraçar tudo o que lá está, pedindo-nos calor.

Mas há que dizê-lo, quem é que, depois de uma autêntica guerra, tem vontade de abraçar o filho da puta que estava do outro lado das trincheiras? Ainda que, bem vistas as coisas, do outro lado das trincheiras haja apenas uma criança a fazer uma birra...

(porque obrigar alguém que ainda agora descobriu que podia dançar, a parar... é tortura)


** Uma nota final a outros caminhantes deste vale dos anseios: não tirem os olhos das pedras do caminho. Agarrem-se ao que vos for morno, ao que vos aquietar o coração (seja o que for). Eu sei que não parece, mas vai correr tudo bem. O comboio há de passar. Senão vejam por mim. foi preciso o comboio passar para eu voltar a escrever.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Pela toca do coelho abaixo

Já experimentaram correr de coração vazio?

O peito altera-se com a respiração, assoberbado com o ar que entra e o que sai, ambos apressados, caóticos, desorganizados. Mas um ar vem, outro vai. Nenhum dos dois fica, verdadeiramente. Momento houvesse em que disso o peito se pudesse aperceber - aí ele se confrontaria com o salão vazio, onde mora apenas um nó. Mas um nó é como coisa morta, não adianta; apenas atrasa, se tanto. E o ar lá vai contribuindo para esta confusão, com as suas manobras de diversão. Esta espiral não ajuda nada.

Down the rabbit hole

Os tempos não estão para grandes luxos. Em tempo de guerra, ainda assim, não se limpam armas. Portanto vamos lá. Às pequenas coisas que nos mantenham ao de cima.

Agora que penso nisso, um pequeno luxo é o momento do banho. Permite-se aquecer finalmente o corpo, mergulhando em água demasiado quente, demorando um pouco mais para deixar que o calor vá mais além. Que desça a toca do coelho e massaje, ainda que subtilmente, o dito nó. Momentos de silêncio, ou de música, gritantemente necessários. Para voltar a centrar a bússola. É daqui que tudo tem de partir. Do centro de nós partem as frotas para ajudar o mundo inteiro.

Ah, um outro toque de magia: adormecer um bebé. Quando nada mais quiser resultar; quando nada te ocorrer, segue esta receita. Pega-o nos braços [ele desperto e rabino, indeciso sobre se deverá demonstrar as capacidades vocais] e inunda-o de mimo e paciência. Embala-o, sem pressas entranhadas nos músculos, e observa as suas pálpebras a cederem lentamente; o seu corpo pequenino vai relaxando lentamente, e os olhos tentam ainda resistir, mas sentimos a magia a chegar. Paciência, força nos braços, e foge para a zona mais escura; observa esta pequena nova vida a deixar abandonar-se ao sono. Sente o amor a suar de ti, observa cada segundo, cada gesto. Quem te dera que pudesses assim embalar alguns crescidos. Que prazer, vê-lo adormecer, e primeiro de pestanas ainda trémulas, e depois finalmente abandonado ao mel do descanso profundo, encosta-o a ti e permite-te ser o abrigo para essa paz: partilha-a, a paz. Sentir-te-ás mesmo a maior do mundo.

[Anseio por um daqueles abraços que demoram o tempo de uma volta do mundo sobre si mesmo. Perdeu-se o tempo, nos dias que correm, para dar abraços desses.]

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Grata. devagarinho.

Devagarinho. Como o rumor de um tambor ao longe, numa cidade que se espera desprovida de tambores. Como o ronronar quase surdo de um gato, a um tempo apaixonado e terapêutico, vibrando subtilmente sob as nossas mãos.
Um borbulhar indivisível no meio das ondas, das correntes. Quase, digo eu e sublinho, quase indistinguível.
A um ritmo que enlouqueceria qualquer são; um passo de tartaruga doente, um sol amarelo e fraco que praticamente se confunde com um dia nublado.

É assim que descrevo esta sensação lenta no peito, que saboreio quase sem respirar, com medo que me fuja. Paciente como em tempos fui a observar os animais a brincar, até me poder aproximar e fazer parte do seu mundo, observo e aguardo, grata desde já.

Grata por este rumor no peito, cujos passos fazem lembrar o brilho de viver que em dias passados me encheu os olhos. Grata por poder sentir algo parecido, depois de ter mergulhado durante anos numa lama baça que me impedia de ver qualquer tipo de luz - sobretudo a luz que vem de dentro. Grata por ainda ser capaz de a reconhecer. Grata por sentir que a solidão não diminui este palpitar - antes, aconchega-me o sono, acalma-me o peito quando o que vem de fora é demasiado. Grata por esta solidão que me amarra o sorriso ao corpo quando os outros se aproximam, ou quando eu me aproximo deles. Grata por este lugar onde estou e de onde vejo esse coração que consigo ser, os gestos que já são meus e que relembram essa alma com coragem.

Grata por olhar para o baloiço do parque das crianças, mesmo em frente à minha janela, e já só me sentir tranquila. Ouço os brincares e as alegrias que traz, ao longo do dia; por vezes as suas pequeninas vozes de grandes vontades vêm ter comigo, e fazem-me sorrir. Já sei esperar, porque já sei que vai acontecer - um dia destes, vou deixar cair a vergonha, a pressa e os medos, e vou sentar-me a andar naquele baloiço - longe da luz do dia, longe das pressas e das vergonhas, entregando-me pela mão a mim própria. Sem esperar que me venham pegar na mão.

E ainda assim sabendo que, se acontecer, se alguém quiser partilhar o baloiço, saberei ser igualmente feliz. É a isto que se chama esperança?

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Carta de amor

Minha querida D.,

Que a luz te toque, todos os dias. Como o gesto gracioso da mão dos que te amam, neste teu dia - mas que o gesto se repita em salpicos, em colheradas, e de vez em quando em lufadas, para arrulhar esse sorriso bom no teu rosto, e te encher por dentro. Que essa luz te venha insuflar os passos, torná-los mais leves e fáceis, enquanto exploras este nosso mundo, fazendo dele teu.

Sei que a luz não chega a todo o lado, mas sei que ela vai chegar até ti. Tens por perto dois dos mais bravos cavaleiros que algum dia vi. São os teus guardiães e neles sei que podes confiar toda a tua inocência, as tuas dúvidas, os teus medos. São amor em estado humano. 

Não podes ainda ler, talvez não saibas entender. Mas hoje escrevo para os teus pais, duas luzes que admiro e amo, para lhes dar um beijo por ti, e lhes dirigir as palavras que eles um dia irão ouvir de ti. Vejo os seus olhos beijando-te, orgulhosos, cheios de ti. Quero com estas palavras ser espelho - para que sintam como também eles são razão de orgulho, de inspiração, de sorrir e de estar cheio. 

Que descubras rapidamente (se é que ainda não descobriste) como o abraço deles é o teu mundo, o teu refúgio, o teu chão.

E sim, esta é, por isso, uma declaração, uma carta de amor.
Amor por estes dois amigos, por esta equipa, por estes seres fortes, que caminham a teu lado e enchem esse caminho com todas as almofadas, instrumentos, forças e bênçãos que têm dentro de si para te dar. O melhor que um filho pode pedir de um pai, de uma mãe. O colo de um ser humano, feito a partir de duas almas.


A vosso lado nesta caminhada.

Com muito amor, no dia da D..

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Carta para o mês de Outubro

Querido Outubro,

Costumas ser tão doce para mim. Já me trouxeste o amor quando eu estava longe; já me trouxeste trabalho quando eu estava desorientada. Trouxeste já a ternura dos amigos. Até uma bicicleta, belo Outubro, a combinar com o Outono, para me ajudar a não parar. Trazes recomeços, abraços, esperança. Costumas trazer sol q.b., luz - uma luz mais amarela, de que eu gosto. Costumas trazer-me força para escrever; inspiração. E o que eu preciso desse mel.

Trazes coisas pequenas, detalhes a que muitos não prestam atenção, mas que enchem a alma de quem pede pouco e está atento. Trazes o recolhimento, a introspecção, e o fôlego - fôlego de quem ama o calor, para inspirar fundo e aguentar mais um Inverno.

E os outros meses têm sido tão bandidos. Se eu te contasse tudo, irias concordar comigo. Mas não me vou queixar. Tenho sorte, no meio disto tudo. Mas não me importava de me reencontrar com o meu brilho. Com aquele sorriso que persiste para além das rugas, que se estende pela pele, que acorda tudo o que está adormecido.

Outubro, por favor sê doce para mim. Só mais uma vez. E se não for pedir muito, desta vez, arranja maneira de ser de vez.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Alguém por aí, que também esteja a recomeçar?

[Hoje pensava nisto.
Pensava ao longe, sem me envolver demais. Ou pelo menos sem me envolver ao ponto de doer.
E decidi escrever. Para mim, mas não só. Para os que possam andar por aí, e que também dêem por si aqui, onde estou]

Sou carrasco de mim mesma, das minhas ideias e tentativas. Fosse eu restaurante novo, e seria também o crítico impassível e draconiano que destruiria, com palavras rebuscadas, todo e qualquer projecto de sonho desse restaurante - cingir-me-ia a todo e qualquer movimento dos empregados, a toda e qualquer tentativa de inovação criativa na cozinha, a toda e qualquer combinação de ingredientes e sabores nunca antes tentados. Resumindo, eu sou o meu pior pesadelo.

E faz agora cerca de um ano e meio que me lancei numa tentativa furiosa de mudar a minha vida. Comecei uma revolução, acreditando que com o tempo poria também este crítico porta fora. Até ao momento não aconteceu, claro está, mas pelo menos já o tenho ido acalmando. E já tenho ido aceitando que ele está por cá.

Resumiria esta revolução (que ao contrário da dos cravos, tem sido sangrenta) num só verbo: recomeçar.

Mas lá está: tenho tentado, com todas as forças, sabotar este recomeço. Desacreditando-me (quem é que pensas que és?), duvidando (quando é que achaste que ias ser capaz de fazer isto?), manipulando a realidade (nunca vais conseguir sozinha!), até me cansar.
(já me esquecia de uma outra: arranjar maneira de me esquecer das coisas boas que faço, e pelas quais me devia sentir orgulhosa de mim mesma - isso? não era assim tão importante).

Mas de vez em quando a vida traz-nos coisas. E muitas, muitas vezes, se estivermos atentos, ela traz-nos exactamente aquilo de que precisamos. Sem pescar por nós, mas coloca uns indicadores (por vezes em néon!) de onde conseguiremos os elementos para uma cana de pesca.

Mostra-nos, por vezes colocando uma pessoa na nossa vida. Ou através daquele livro que andamos a adiar ler há anos, e que um dia cai da prateleira enquanto limpamos. Um filme que passa por acaso na televisão. Uma conversa onde menos a esperamos. Por vezes, uma conjugação de várias destas coisas (talvez porque andamos a dormir, e precisamos de várias pistas). Mas o trabalho é nosso. Só agarramos, e só vemos, se quisermos ver.

Não te esqueças disto, coração esquecido: um dia quiseste encontrar um cantinho só para ti, encontrar a tua paz. E muito lutaste por isso. E conseguiste!

E agora, que aqui estás...
Tantas vezes te entristeces com o teu caminho, diferente das tuas "iguais", cujo percurso segues com carinho, ainda que um pouco à distância. Algumas já com filhotes, outras casadas, acompanhadas, viajando. Mas já te perguntaste quantas delas gostariam de ter esta oportunidade - e não tiveram, porque não calhou, porque não deu, ou porque decidiram assim, mas ainda assim gostariam de ter passado por isto?

Este silêncio escolhido, onde te podes cuidar em primeiro. A espontaneidade de um caminho que se desenha pelos teus pés, livre, seja com um livro que pede para ser lido tarde fora, ou um copo de vinho que se bebe ao jantar porque sim. Horas passadas à janela. Longos minutos a cuidar das aromáticas. Uma ida espontânea ao cinema. Ou as cantorias na cozinha, na casa de banho, no quarto... até o cão da vizinha começar a uivar.

Estar sozinho não é fácil. Mas este espaço vazio que por vezes ameaça engolir, pode ser espaço para dançar. Para escrever. Para o que quiseres. É teu.
O mundo inteiro está aí, ao virar da esquina. Às vezes é assustador, pensar que existe tanto para escolher e decidir - pode ser avassalador. Mas as decisões não se tomam todas num dia. E também ele é teu - o tempo.
Por isso, mantém-te descalça, despenteada e de olho aberto e curioso. Ainda és uma miúda. Cuida de ti. Não subestimes os dias difíceis, mas faz como diz o outro: carrega no baton, abusa do verniz, e põe os pontos nos is.

Illustration by Yaoyao Ma Van As

sábado, 8 de julho de 2017

Era o sonho, ou eu.

Vi-te ao longe e quis ir ao teu encontro. Não sabia ainda o que é que isso significava. Não sabia nada. Mas achava que sim.

Assim fiz, de impulso. Como em quase tudo o que faço. E deixei-me estar ao teu lado, porque fazia sentido. Porque o mundo se abria à nossa passagem e eu via um outro mundo, desfilando nos teus olhos. Um mundo de coisas novas, com brilho, sem tecto e sem fim. Um mundo onde eu podia caminhar e ser dona de qualquer coisa. Talvez de mim.

Mas não foi isso que aconteceu. Ou pelo menos não foi a única coisa que aconteceu.
De facto, com alguma frequência aconteceu o inverso. Estar contigo acabava por me dar uma sensação de impotência. Por vezes esmagadora. De não ser suficiente. De não conseguir chegar aonde tu precisavas que eu chegasse. E lá estou eu, às voltas para tentar pôr a culpa só em ti. Claro que também tive culpa - pelo menos metade é minha. A verdade é que eu não estava lá.

Não sabia o que estava a fazer, e por isso só posso agora pedir desculpa. Como tanto do que sou, não era isso que eu queria.

Quis caminhar, e de impulso me meti ao caminho, sem me permitir aceitar uma pata partida. Uma asa quebrada, sem a qual acompanhar-te nos teus voos era impossível, por mais desejado que fosse. Não tenho medo de me aceitar como um animal de pata partida. Não só pela dignidade que identifico nos animais, em tudo mais grandiosos e generosos do que aquilo que nós, humanos, somos capazes; mas também porque descreve bem o estado a que cheguei. Reduzida a uma paleta minimalista de emoções das quais dispor; toldada por uma fome incrível. Fervida até que sobrasse apenas um sentido fino de sobrevivência.

Eu quis ficar no sonho. E para chegar a uma resolução sobre isto, algo tinha que morrer. Ou eu, ou o sonho. Porque ser humano algum consegue para sempre permanecer num sonho, a não ser que morra. E sonho algum pode permanecer no tecido real - em algum momento, tem de acabar.

Se não houvesse um registo, se não houvessem testemunhas, daria quase para duvidar. Da perfeição de alguns momentos, de contornos tão absolutamente livrescos.

E talvez por isso. Talvez para ter isso, um dia se tenha de abandonar o barco. Para não nos perdermos nesse labirinto que é acreditar que os sonhos podem ser realidade sem desafios, sem compromissos, sem cedências e sem luta.

Com tudo isto, obrigada. Por me dares condições para sonhar acordada, mostrando-me onde elas estão escondidas, dentro de mim. Condições que são difíceis, muito difíceis de matar.

sábado, 24 de junho de 2017

Mesmo que isto seja um texto de merda.

É preciso insistir, dizia-me um passarinho hoje. É preciso, mesmo em dias cinzentos, insistir. Abraçar a frustração de não conseguir escrever. Sentarmo-nos com ela a fumar um cigarro, encará-la, deixar que nos dissolva a paciência, e vai daí escrever alguma coisa; qualquer coisa. Pode ser que daí surja zanga, mais zanga ainda, porque ao reler percebemos: "isto está mesmo uma merda!". E pega-se nessa zanga avolumada, nessa trouxa sem jeito, nesse molho de brócolos mal enjeitado, e escreve-se outra vez. Zangados e tudo; a fumegar, se for preciso.

"Tal como andar de bicicleta", dizia-me o passarinho, "se não praticas durante muito tempo, a atrapalhação não quer dizer que tenhas deixado de saber andar. Mas não convém atirares-te por uma rampa abaixo, depois de teres passado muito tempo sem andar. Começa devagarinho."

Aceita o ziguezaguear da bicicleta como teu. Como natural, e como temporário. Irrita-te com isso, se isso te fizer mexer para mudar. Mas não te zangues contigo. Não voltes costas.

Aceita o vocabulário repetido (que terror); aceita que aquela ideia brilhante se esfumou nos instantes que demoraste a conseguir parar para a anotar. Aceita que metade dos sentimentos não estão a sair, não transparecem. Aborrece. Não te acomodes, mas não risques. Lê uma vez e outra, até que a fúria te saia disparada pelos olhos e se cole ao papel. Sim, nem que seja ela, mas que alguma coisa, algum veículo, por mais ridículo que possa parecer, te ajude a chegar onde tu sabes que és capaz de chegar. E que tu, tão cheia de coisas para contar, se calhar simplesmente não sabes por onde começar.

Mesmo que acabe por sair um texto de merda, escreve.

[bem hajam os passarinhos.]

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sentir.

Hoje levantei-me e estava calor.
Há vários dias que o calor não amaina; as paredes não arrefecem, o corpo não tem sossego. Tomam-se dois e três banhos num dia, para tentar aplacar esta inquietação.

Tudo está demasiado quente: a sopa está quente; o computador está quente; a casa está quente; a rua, a roupa, o corpo - que irritação, sentir que tudo está quente.
E lá vamos nós, na nossa agitação, reclamando pelo caminho, no meio do trânsito; reclamando das pessoas com quem temos de falar, ou daquelas que não falam connosco. Passamos o dedo pelo telemóvel e verificamos "gostos" em publicações, como se verificássemos abraços ou carinhos. É difícil sentirmo-nos gratos, com a pressa dos dias. Não nos confortamos com o rumo que o dia está a levar, ou mesmo os dias em geral. Sobra-nos pouco, pelas nossas contas. Queríamos mais.

E depois há pessoas que acordaram num dia como estes, nossos, sem saberem como é que ele iria acabar. Sem saberem que seria o último carinho, a última reclamação, o último minuto. Sem saberem que não haveria mais para querer, no dia a seguir. Porque não haveriam mais dias.

Que irritação, poder sentir.

Somos tão pequeninos. Tão esquecidinhos. A vida é um aqui e agora, por enquanto. E de vez em quando, quando já andamos embrulhados nisto tudo que importa tão pouco - o antes, o se calhar, o talvez e o depois - lá somos sacudidos e postos no lugar. Se tivermos a sorte de continuar a sentir.