sábado, 24 de junho de 2017

Mesmo que isto seja um texto de merda.

É preciso insistir, dizia-me um passarinho hoje. É preciso, mesmo em dias cinzentos, insistir. Abraçar a frustração de não conseguir escrever. Sentarmo-nos com ela a fumar um cigarro, encará-la, deixar que nos dissolva a paciência, e vai daí escrever alguma coisa; qualquer coisa. Pode ser que daí surja zanga, mais zanga ainda, porque ao reler percebemos: "isto está mesmo uma merda!". E pega-se nessa zanga avolumada, nessa trouxa sem jeito, nesse molho de brócolos mal enjeitado, e escreve-se outra vez. Zangados e tudo; a fumegar, se for preciso.

"Tal como andar de bicicleta", dizia-me o passarinho, "se não praticas durante muito tempo, a atrapalhação não quer dizer que tenhas deixado de saber andar. Mas não convém atirares-te por uma rampa abaixo, depois de teres passado muito tempo sem andar. Começa devagarinho."

Aceita o ziguezaguear da bicicleta como teu. Como natural, e como temporário. Irrita-te com isso, se isso te fizer mexer para mudar. Mas não te zangues contigo. Não voltes costas.

Aceita o vocabulário repetido (que terror); aceita que aquela ideia brilhante se esfumou nos instantes que demoraste a conseguir parar para a anotar. Aceita que metade dos sentimentos não estão a sair, não transparecem. Aborrece. Não te acomodes, mas não risques. Lê uma vez e outra, até que a fúria te saia disparada pelos olhos e se cole ao papel. Sim, nem que seja ela, mas que alguma coisa, algum veículo, por mais ridículo que possa parecer, te ajude a chegar onde tu sabes que és capaz de chegar. E que tu, tão cheia de coisas para contar, se calhar simplesmente não sabes por onde começar.

Mesmo que acabe por sair um texto de merda, escreve.

[bem hajam os passarinhos.]

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sentir.

Hoje levantei-me e estava calor.
Há vários dias que o calor não amaina; as paredes não arrefecem, o corpo não tem sossego. Tomam-se dois e três banhos num dia, para tentar aplacar esta inquietação.

Tudo está demasiado quente: a sopa está quente; o computador está quente; a casa está quente; a rua, a roupa, o corpo - que irritação, sentir que tudo está quente.
E lá vamos nós, na nossa agitação, reclamando pelo caminho, no meio do trânsito; reclamando das pessoas com quem temos de falar, ou daquelas que não falam connosco. Passamos o dedo pelo telemóvel e verificamos "gostos" em publicações, como se verificássemos abraços ou carinhos. É difícil sentirmo-nos gratos, com a pressa dos dias. Não nos confortamos com o rumo que o dia está a levar, ou mesmo os dias em geral. Sobra-nos pouco, pelas nossas contas. Queríamos mais.

E depois há pessoas que acordaram num dia como estes, nossos, sem saberem como é que ele iria acabar. Sem saberem que seria o último carinho, a última reclamação, o último minuto. Sem saberem que não haveria mais para querer, no dia a seguir. Porque não haveriam mais dias.

Que irritação, poder sentir.

Somos tão pequeninos. Tão esquecidinhos. A vida é um aqui e agora, por enquanto. E de vez em quando, quando já andamos embrulhados nisto tudo que importa tão pouco - o antes, o se calhar, o talvez e o depois - lá somos sacudidos e postos no lugar. Se tivermos a sorte de continuar a sentir.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Uma luz presa cá dentro.

Hoje lia, de Victor Hugo:
'A writer is a world trapped in a person.'
("Um escritor é um mundo preso dentro de uma pessoa.")

E é isto.
É sentir todo um mundo revolver-se dentro de nós. Como o mais inquieto bebé de sempre, no ventre de sua mãe, em fim de termo, impaciente, demasiado grande, cheio de calor e frustração, mas acima de tudo, confuso.
O piano diante do homem que não quer ouvir. O coração diante daquele que não lhe sabe tocar.
E por mais vídeos que se vejam, por mais que se leia e se alimentem os sonhos com filmes e canções, chega a hora do espectáculo e há dias em que simplesmente não funciona.

"Teremos de ver", disse o técnico enquanto apagava os holofotes, um a um.
Tens de querer ainda mais. Tens de esticar mais a perna, de alongar mais, de suster a respiração; e tinhas de ser mais nova para conseguir fazê-lo. Não sei bem o que posso fazer mais por ti, mas farei o que puder, até porque és uma miúda porreira e tudo.
E lá vais tu, rebolando mais uma vez, esperando, sorrindo, colocando as mãos palma com palma e fazendo algo que nunca achaste que ias fazer: rezar.
Dás mais, na hora de trabalhar. Dás o que tens, ao ponto de te esqueceres de respirar. E mesmo assim, há dias em que não chega.

Chegas ao palco e voltas a esquecer-te de respirar. Não te olhaste ao espelho uma única vez. Mas sabes que está tudo no lugar. Sente-se. Apesar de tudo o que não se vê, de tudo o que não se sabe, esta luz presa cá dentro, como se iluminando o armário da alma, não engana.

Fotografia por Nadine T. S.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pequena coisa. Coisa pequena.

Em cada um dos teus dias tem de haver uma coisa, pelo menos uma coisinha pequenina, que seja boa. Acredita. Apenas ainda não reparaste. E pode não apagar todas as menos boas e as terríveis que por ti passam, nesse mesmo dia. Mas não te deixes enganar.

O tamanho não está apenas nas coisas, mas também na mão que as agarra. Será que a encaras como uma perda de tempo (sim, essa coisa boa de que falei), como uma poeira própria de microscópio, ou será que és capaz de algo muito mais difícil e desafiante - deixar-te levar pela curiosidade de descobrir o quão grande essa coisa pode ser, dentro de ti?

Não ouso dizer que descobri a cura para todos os males, nem a estratégia certa para todos os dias. Mas na maior parte dos dias corremos; estabelecemos metas e deixamo-nos apanhar sobretudo pelas tarefas e deveres (têm de vir primeiro). Não sobra tempo para as casualidades, para os pormenores e para as sortes dentro dos percalços. Às vezes dura o tempo de uma respiração. Estás atento?

Hoje é pequena, amanhã pode ser grande. É como se elas andassem a saltitar entre todos nós. Hoje calha-me uma maior, amanhã calhar-te-á a ti. Entretanto, vou recebendo as pequenas, para não me esquecer do sabor. E vou recebendo as menos boas, para me lembrar de estar grata. E para nunca deixar de aprender.

Não é verdade absoluta, mas agarrar os bichos mal-dispostos, na maior parte das vezes, só traz mais nervos e azares. Por isso mal não faz, tentar. Agarra-a, essa coisa boa, seja de que tamanho for, e não a deixes escapar sem um sorriso teu.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Dias cá. dias lá.

Há dias em que consigo viver esquecendo-me que existes. Como se não povoasses ainda memórias, sonhos, passos.
Há fases em que o faço gloriosamente; viver sem ti. Dias em que sou capaz de contar várias razões para estar só. Razões para continuar a ter esperança no dia de amanhã, num caminho aberto à minha frente. Dias em que recordo como vim parar aqui. Em que sou capaz de olhar em volta e contar várias bençãos, sentir-me grata, respirar fundo e continuar.
Há dias em que sei que tem de ser.

Há dias em que não faz mal. Em que não dói.

Mas depois há dias como o de hoje. Há dias em que tenho de morder valentemente os lábios para me impedir de te chamar.

terça-feira, 7 de março de 2017

Em caso de dúvida, levante o braço.

Em tempos de confusão e dúvida, siga em frente.
Sempre que as apitadelas forem mais do que muitas, e lhe der a sensação de que pode estar a fazer algo errado, pare. Encoste a uma berma assim que possível, e respire fundo. Se possível, fique mesmo por aí, e volte a pegar no carro apenas no dia seguinte. E se precisar de ajuda, vá lá, não seja assim... levante o braço.

Não se esqueça de fazer algo que lhe dê muito prazer, todos os dias. Seja só um café, sejam três páginas do novo romance do seu autor favorito, ou algo mais pecaminoso, ou até mais vulgar (como o romance do seu quinto autor favorito, que encontrou em promoção no supermercado). Não importa, na verdade, a natureza da coisa em questão. Importa só o prazer que esta lhe dá. Não desista de se oferecer, diariamente, um bocadinho de consolo. Se for mais do que um pedacinho, melhor. É esse pedacinho de si que vai alimentar todos os outros. É esse lugar de si, agora acariciado, que vai criar espaço para os outros, os que precisam de si.

Procure conversar muito. Sobre tudo, o que o atormenta e o que o faz chorar a rir. Se não encontrar com quem praticar o acto descrito, fale sozinho. Também costuma funcionar bem.

Sempre que possível, pratique o abraço. Pratique palavras e gestos de amor, com maior ou menor introversão. Podem ser pequenos, e dotados de subtileza. Mas não deixe de se relembrar a si próprio de vez em quando que, independentemente da dor e frustração dos dias, existe ainda amor dentro de si. Que alguns dias podem ser ridiculamente difíceis - dar vontade de atirar a toalha ao chão -, mas que nem esses podem destruir o que existe em si de bom.

Em caso de palermice própria, procure sorrir. Vai ver que a palermice fica mais pequena, ou pelo menos valeu mais a pena. Procure sorrir em todas as outras situações acima e abaixo descritas. E naquelas que não vêm aqui descritas, também.

Se tiver mesmo de continuar a conduzir, procure concentrar-se em tudo, menos naquilo que está a dificultar-lhe a vida. Não é que isto vá fazer com que o dito cujo desapareça - simplesmente, focar os olhos até estes entortarem só vai resultar mal para si.

Respeite-se mais. Dê mais vezes a mão. E o braço a torcer. Agarre-se bem ao que traz o sol de volta. Faça mais coisas tolas. Peça desculpa. Mas nunca, por nunca, se esqueça de si.

É que sabe, você é verdadeiramente a única personagem que nunca irá desaparecer do seu livro. Por isso, dê-lhe todas as hipóteses para um final, um princípio e um tudo-o-que-vem-pelo-meio o mais feliz que lhe for possível.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Caixas vazias.

Há dias em que podíamos ser caixas vazias. Todos nós temos dias sem interior, sem presença.
Mas outros dias há, em que a caixa está cheia. Diferentes objectos se nos revelam e nos preenchem, de formas diferentes e bonitas. E o que nos leva lá, a cada um de nós, é a nossa capacidade tola de continuar a sonhar.

A minha ponte? O meu objecto? O amor. Sim, ainda acredito. Ainda vejo, numa linha mais lá ao fundo, a minha mão suportada por outra, forte, constante. Oiço uma gargalhada sobre a minha, dando força uma à outra, mutuamente.  A par de todas as imperfeições, de todas as resmunguices, a minha mão estende-se para a sua face, lembrando-se da ternura nas horas mais imprevisíveis.

A minha voz desafinada enche a sala, e há alguém que me ouve sorrindo. Com isso sentindo-se confortado.
O meu coração enche-se ao ser surpreendida com um beijo. Quando acordo sabendo que um abraço é o meu lugar seguro, em dias de chuva, de poeira, de assim-assim.
Muito disto não será como imaginei. Mas este calor, esta presença. Como uma cadeira vazia, à espera da pessoa certa que nela se irá sentar, e de repente dar-lhe sentido. Propósito.  Cuidar e ser cuidado. Disso trata a história que tenho para contar.

Não desisto, apesar do silêncio. Deixo-me ficar nele, a apreciar o espaço, a apreciar o tempo que me resta antes do resto da minha vida, onde, acredito ainda, não estarei mais sozinha. Dou um salto para dentro da caixa. Divirto-me a cantar lá dentro, aproveitando o eco. Vou sonhando como arrumar a desarrumação nesta caixa, enquanto espero que o amor chegue e me ocupe o tempo, as mãos, o espaço, o coração.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sentada no telhado.


Soube logo que só ia saber fazer isto. Desde o primeiro caderno que me foi oferecido, há tantos, tantos anos. Nunca lhe encontrei melhor propósito do que para empilhar letras. Excepto, claro, quando perdia a paciência para procurar as palavras certas para os tumultos em questão (era uma jovem adolescente). Nestes casos, acabava rabiscando as minhas desarrumações nas margens, para deixar sair a pressão para qualquer lado. Na altura, quase só me saíam poemas de amor - maus, lamechas, desajeitados como tudo. Eram as histórias que eu tinha para contar.

Lembro-me desse caderno como se estivesse à minha frente, e até ver ainda o guardo; azul escuro, de papel reciclado, com um buraco na capa onde desenhei, vá-se lá saber porquê, um pé (que só eu sei dizer que é um pé, e apenas porque fui eu que o desenhei).

Escrever era, já na altura, como sentar-me num telhado.
E deixar o olhar perder-se, até que encontrasse algo em que valesse a pena prender-se. Ora aí está.

Antes disso já escrevia cartas, notas de amor; empregava palavras que os da minha idade não conheciam, e das quais portanto zombavam. E eu, acanhada como um grilo, lá me deixei fascinar pela ignorância e deixei de cantarolar, reservando a minha voz para a solidão. Talvez quase a tenha perdido, ou deixado enferrujar. Mas não calhou, ela cair; calhou apenas mudar e crescer, e portanto aqui está ela - cada dia mais ela. Ou mais eu, ou mais qualquer coisa.

Os telhados onde me sento hoje para escrever são outros. São maiores, mais altos; lá chegam sabores, cheiros e visões que vou coleccionando na minha cabeça. Deixo que fervilhem, se componham, enquanto fumo um cigarro - agora já posso; já tenho idade e paciência para isso.

De vez em quando tenho sorte, e o meu olhar consegue alcançar uma janela - e aí, não tenho vergonha de o dizer, espreito lascivamente. Capturo tudo o que posso com a certeza de uma câmara fotográfica e ali fico, encantada, até ao momento em que a luz desiste e se apaga (ela desiste sempre antes de mim). A desilusão só dura uns segundos. Depois vem o silêncio, e devagar começa o burburinho interior. São as peças a juntar-se; é a minha imaginação, são os meus pós e luzes a colar tudo.

Porra, como eu me sinto quando escrevo! (é talvez como entrar no Templo da Sagrada Família pela primeira vez... mas uma e outra vez)
É a consagração de todos os lamentos, de toda a trapalhada, de toda e cada hora sobejante daquelas em que estou a escrever.

É, em boa verdade, a única razão por que preciso desesperadamente de mim. Para partir estes calhaus todos; para os deixar rolar (e se eu os faço rolar...!), até serem seixos redondos, macios, únicos. Neles estão contidas todas as histórias que me passam ao lado, à frente e por dentro. Por elas, pelas histórias, existo. E nelas continua a existir o melhor do que há em mim - como uma estrela cuja luz ainda é visível na Terra, muitos anos depois de se ter apagado.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

No lugar.

É isso. Só isso. Agarra-te com força ao que te inquieta - mãos arqueadas, braços seguros. Ocupa-te de saber o que te move, o que te faz borbulhar. Assegura-te de que cada músculo conhece o seu lugar, e mantém um sorriso na cara. Entrega-te ao momento. Quando for hora de saltar, empurra o chão com toda a força.

E se puderes, guarda alguma delicadeza dentro de ti. Não te deixes partir pela força que te pede o salto. Os nossos movimentos só ganham em elegância e beleza.
Fotografia: Caroline Pav

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Vai e beija o mar por mim

Ela foi e pediu-lhe. "Beija o mar por mim."
Nunca mais poderia voltar ao mar. Não àquele; não àquela praia.

Que tristeza tamanha. Deparava-se com uma imensidão de nada, de vazio. No peito gritava uma sensação de injustiça. Não poder tornar a uma casa onde se foi tão feliz. Onde nos redescobrimos, onde fizemos outros felizes. Como quem fez algo de errado.
A frustração de saber como é raro sentir assim. Aqueles instantes que queremos agarrar para nunca largar, "é isto mesmo", "estou no sítio certo", "quem me dera que nunca acabasse". E depois ter de largar tudo; pegar fogo ao que se construiu, ao que se foi; ter de fugir e começar de novo.

Um dia houve medo.
Medo de nunca mais conseguir ordenar aos dedos que se juntassem em equipa para escrever. Por momentos pareciam ter deixado de lhe dar ouvidos.
Medo de ser agora irremediavelmente incompleta.
Medo do seu coração, que enfim revele ter passado a ser de pedra; sem sonhos, sem calor, apenas pesando na alma, pesando no corpo, e por fim pesando nos dedos que, desistentes e ensonados, abandonem aquele que fora até ali o seu destino e prazer.

Pobre criança; não sabia ainda que o irremediável é apenas algo que ainda não cresceu o suficiente dentro de si, para lhe permitir ver a solução. Mesmo que esta seja a falta de resolução. Ainda não é tempo, mas há de ser.

Talvez tenha de se esforçar para desfazer os grãos de pedra que ameaçam colar-se ao coração, mas recusa-se a acreditar que eles possam alguma vez substituir aquilo de que é feita. Talvez esteja cansada, calejada. Mas enquanto as manhãs cheias de sol se seguirem às noites frias de lágrimas, há esperança. Enquanto o abraço de uma criança for o suficiente para derreter o frio dentro de si, estará protegida.

Não sabe bem como se faz. Resiste ao sono para conversar noite fora; durante o dia será uma sonâmbula. Dorme no chão para não perder a chegada, pé ante pé, da madrugada; não sabe por quanto tempo aguentará esta charada. Mas enquanto houver amor, dá para acreditar. Deita-se a pensar que um dia, daqui a muito tempo, talvez possa voltar a beijar o mar.

2017. Esse será o ano deste livro. Querem ajudar-me a escrevê-lo? Pois podem começar por escrever isso mesmo: 2017. Escrevam aí onde quiserem.


Fotografia de Alexandre Guidetti.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Fio.

São duas almas, nada mais.
Quando a noite chega e abraça tudo, mantendo-se apenas longe do calor dos candeeiros de rua, eles são só mais duas figuras, dois semblantes de uma espécie que existe em demasia. Da qual não deveria existir tanto espécime, digamos assim.
 E mesmo se decidirmos aproximar-nos para ver mais de perto, não descobrimos à partida nada de extraordinário. Não são muito grandes nem adoravelmente pequenos; não brilham, não têm nenhuma característica que os coloque ao nível do extraordinário.

Mas algo no meio deles brilha.
Um fio invisível que os une, esticando-se e encolhendo-se, mas nunca quebrando. Um fio de luz que atravessa paredes e distâncias, uma ternura capaz de aguentar dias sem comer. Um sorriso que se distingue dos outros todos. Como duas mãos que se dão sem se darem, não fisicamente; duas mentes ligadas ao nível do extraordinário. Duas almas que apagam a palavra fim e colocam um infinito, ou pelo menos um enorme ponto de interrogação, ao final da estrada. Enquanto riem à gargalhada, mãos dadas por cima das barrigas redondas sempre cheias de fome um do outro.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Reflexões do caos

Há um enlouquecimento puro nos dias. Repararam?

Corremos da cama para o trabalho; só paramos para nos olharmos ao espelho de forma a garantir que não estamos ridículos (com alguma madeixa de cabelo no ar, com um olho borrado de maquilhagem), em vez de ser para nos apreciarmos e cuidarmos de nós.

Engolimos um café a ferver pela goela abaixo para garantir que as poucas horas de sono que nos permitimos nos darão a tolerância suficiente para a quantidade de absurdos que teremos de enfrentar ao longo do dia. Vociferamos nos nossos carros, com os outros condutores; irritamo-nos com quem está a fazer o mesmo que nós faremos uns metros à frente.
Bufamos, dizemos asneiras, ou simplesmente ficamos tensos. Caminhamos todos, qual rebanho, na mesma direcção - cada um em seu carro, a gastar o seu próprio combustível.

Se procuramos alternativas de transporte, somos frequentemente lixados com f* grande - ou porque não compensa em termos de preço, ou em termos de tempo, ou porque simplesmente não é de confiança e nos deixa ficar mal, obrigando-nos a pegar no carro na mesma.

Enfiamo-nos em roupas onde não nos reconhecemos, para que os outros nos reconheçam - um estatuto. Despimo-nos assim de nós - e assim que chegamos a casa ao final do dia, aquelas calças de ganga proibidas sabem-nos a céu, devolvem-nos o nome que nem sabíamos existir numas malditas calças de ganga.

Abdicamos do almoço por um salário mais simpático. Comemos uma sandes, uma sopa fria no carro, por entre palavrões e manobras no trânsito para chegar a horas. Porque sim - chegar a horas também dá um salário mais simpático. Independentemente de quão (ir)realista seja o nosso horário.

Ao final do dia estamos num estado de nervos. E com tudo isto estamos a dormir no sofá antes das dez da noite, moídos de tensão, de cansaço, das coisas que queríamos realmente fazer mas para as quais não sobrou tempo ou energia; dos "deveres" que ficaram por fazer e que nos vão vir aborrecer de noite.

Está o caos instalado.

Para quem sabe que eu estou na realidade a relatar o meu dia, praticamente sem pôr nem tirar, não pensem que estou a reclamar... Foi uma escolha que fiz e da qual me orgulho - atirei-me ao trabalho, algo novo, e estou de bem comigo por isso. Por não ter medo. Por confiar.

Estou simplesmente atenta - olho à minha volta e vejo tantos como eu, tão desatentos, conformados, inconformados e infelizes. Porque não respeitamos as coisas mais simples - que não vale a pena estragar a nossa saúde a correr por mais uns euros, por uma opinião social superficial mais favorável acerca de nós, por uma conformidade social. Que comer bem é importante e é bom; que ter uma pausa entre tarefas na nossa actividade profissional é essencial para a nossa produtividade. Que precisamos que sobre tempo e energia.

Que um dia, quando olharmos para trás, vamos maldizer as horas que não perdemos a namorar-nos a nós próprios e aos nossos. Os minutos que decidimos não usar para reparar no céu especialmente bonito. A viagem maluca e espontânea que decidimos não fazer para poupar dinheiro.

Precisam que continue?